segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A francesinha do imperador

A francesinha do imperador
Monsieur Pierre Saisset e sua mulher Madame Clemence, com o pé de meia de suas economias, vieram tentar fortuna no Brasil. desde logo o casal francês se estabeleceu na Rua do Ouvidor; ela, com loja de modas; ele, com oficina de cabeleireiro, então, como hoje, profissões muito rendosas. Um dos negócios do francês era muito promissor: modas e papéis pintados. A casa era na Rua do Ouvidor, 98, frente da Rua Nova, sob a firma de Bernardo Wallenstein & Companhia. o “Companhia” dizia respeito aos Saissets. Mas a riqueza almejada não caía tão depressa do céu como o maná do deserto bíblico. Um dia, Pedro I viu em São Cristóvão a formosa madame Clemence Saisset, que fora levar encomendas das senhoras palacianas e ajeitar penteados para uma festa. Achar bonita a francesinha, cobiçá- la e conquistá- la, tudo isso foi para o imperador cousa de nada e para a francesa... maná do deserto. Ademais, era uma francesa do Rio, e estas eram, segundo o sábio JacQuemont, umas “amáveis raparigas”. Madame Saisset, porém, não preveniu o marido. Apaixonado, sua majestade perdeu a compostura do cargo e não querendo ser um romeu ao luar, visitou a namorada, à noitinha, em sua própria casa. para afastar o marido, mandou- o chamar ao paço, dando ordem ao camareiro- mor que não o deixasse sair enquanto ele, imperador, não voltasse. O elegante Saisset foi a S. Cristóvão, porém, anoitecera e desconfiado da grande insistência do camareiro que procurava retê- lo, suspeitou de qualquer coisa e saiu à francesa. Pedro I jantara com Madame Saisset e, esquecendo- se da pragmática e do marido que deveria estar no paço, desapertou a fardeta, com que estava vestido, descalçou as botas por causa dos calos, e como as cadeiras não fossem muito macias, com a devida licença, recostou- se no lindo leito que fronteava a sala de jantar. tudo isso “inocentemente”, já se vê. É
claro que o cronista antigo, de quem tiramos o relato, envenena o episódio, pintandoo com outras cores... mais “realistas”. É que o protagonista era “real” em todas as acepções do vocábulo. de repente, surgiu, esbaforido, o dono da casa, clamando, faminto e cansado, pela sua querida Clemence. Reboliço e arranjos... o imperador quis saltar a janela. deteve- o rapidamente a modista. Aquilo seria um grande escândalo. Com a graça e inteligência gálica que lhe era peculiar, rasgou a camisa de dormir, com ela amarrando, em várias dobras, a perna direita do imperador. Trocaram algumas palavras para a comédia. ela se vestiu ligeiramente, e abriu a porta do quarto.
Seu marido, na cozinha, empunhava um quarto de frango assado, e com ele se reconstituía. e Clemence, compungida, explicou ao pacífico e razoável marido: - Que ali perto sucedera um desastre: sua majestade o imperador, não podendo refrear os corcovos do seu cavalo, caíra redondamente, torcendo
o joelho direito.Ela, aflita, correra a auxiliá- lo e com alguns transeuntes, o recolheram. ali estava ele, desapertado, na cama, sem poder andar. o médico fora chamado e tardava...Saisset, jogando fora os restos de frango, irrompeu, aflito, pelo quarto a dentro, topando com o monarca, recostado no leito do casal. depois, em desabalada corrida, procurou o cirurgião do paço e trouxe- o. o médico entrou. D. Pedro mandou fechar a porta do quarto e ficou com o esculápio para o curativo. minutos após, o doutor saía, risonho. Saisset, apreensivo, interpelou: - coisa de cuidados sérios, Sr. doutor ? Respondeu o cirurgião: - Que fora nada. apenas engorgitamento dum músculo da perna. lavagens quentes e fricções repetidas curariam aquilo em pouco tempo. porém seria prudente que sua majestade ficasse ali durante a noite. na manhã seguinte o imperador estaria bom e o referido músculo descongestionado. E partiu. o francês Saisset entrou no quarto, e, cheio de mesuras, ofereceu- se para ir buscar a carruagem do paço, porém, achava prudente que sua majestade não fizesse movimentos, pois, como dizia a madame, poderia isso agravar o seu estado. - Ademais, obtemperou a esposa, a imperatriz, a essa hora, recebendo sua majestade assim, sem poder andar, poderia assustar- se. um recado em nome do imperador comunicaria que sua majestade fora passar a noite na Quinta de Santa Cruz.E assim se fez. nessa noite, conta com muita graça um cronista daquele tempo, o respeitável lojista da rua do ouvidor dormiu no quarto da criada, enquanto a sua “virtuosa” esposa, Madame Clemence Saisset, cuidava, como “enfermeira”, do imperial doente. em verdade, o cirurgião- mór do paço acertara com o diagnóstico: aquilo não passara de uma inflamação passageira do nervo da perna. mas a boa enfermeira, carinhosa e sabida nos cuidados domésticos, dos quais é
parte principal a arte de curar, não fechou os olhos durante à noite, sempre atenciosa e cheia de carinhos para com o enfermo. o caso é que, no dia seguinte, o nervo da perna de Pedro I estava descongestionado,
graças à habilidade genuinamente francesa da gentil e bela enfermeira. essa hospedagem e a acertada terapêutica da francesa, foi a sorte grande para o casal Saisset. Pedro I foi gratíssimo. comprou e deu- lhe a casa em que moravam; condecorou- os; batizou por procuração o primogênito da madame, nascido em Paris, depois do incidente. mais tarde, aberto o testamento da majestade bragantina, nele havia esta cláusula: uma boa dádiva em pecúnia ao seu “afilhado” Pedro de Alcântara, primogênito dos Comendadores Saisset.
Francisco Gomes da Silva, por alcunha “O Chalaça”, que de aprendiz de ourives e barbeiro se fizera embaixador e conselheiro, quis, na velhice, escrever as suas memórias. contratou para isso um jovem de talento, que mais tarde seria o Visconde de Almeida Garret, e deu- lhe a incumbência
do livro. daí as “memórias” publicadas por ele. nelas se conta qualquer coisa. aliás, em 1838, escrevia ele ao Marquês de Itanhaém, referindo-se aos bens de Pedro I, do qual fora inventariante D. Amélia:
- “das outras partes a metade da terça, uma pertence ao filho de Mr. e Madame Saisset de Paris, que estão ansiosos para receberem a sua parte”. era a gratidão do Imperador do Brasil que ainda se manifestava à
devotada enfermeira francesa: “bendita queda!” diria com os seus botões de ouro o nédio Comendador
Saisset. “saudosos tempos!” murmuraria, suspirando, a senhora comendadora, ex- modista francesa da Rua do Ouvidor. e ambos tinham razão... a história da queda fora bem arranjada e a terapêutica da francesinha bem recompensada...

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