JOÃO UMBRTO NASSIF Jornalista e Radialista
PADRE DILERMANDO LUIZ COZATTI
PADRE DILERMANDO LUIZ COZATTI

A fascinante trajetória de vida do Padre Dilermando Luiz Cozatti
é simplesmente brilhante. Um homem de elevada cultura, comunicativo, com anos
de passagem por rádio, televisões, usou desses meios para evangelizar. Fluente
em diversos idiomas, inclusive grego e latim. O que mais impressiona é a sua
vivacidade e modéstia. Possui memória fotográfica. No exercício de sua vocação,
passou alguns anos em Piracicaba, local onde realizou inúmeras obras de
direcionamento de jovens, dinâmico, seguiu os ideais de Dom Bosco.
Dom Bosco era muito feliz por ter seus ex-alunos como colaboradores na
missão pelos jovens pobres, quando eles deixavam as instituições educativas e entravam
no mundo do trabalho.
Graças à iniciativa de um ex-aluno, Carlos Gastini, Dom Bosco viu seu sonho
realizado, com o surgimento da Federação Mundial dos Ex-alunos de Dom Bosco.
A Confederação tem dois ramos - masculino e feminino.
Ambos são reconhecidos como associações civis mundiais.
A Associação está aberta a todos os ex-alunos dos Salesianos e das Filhas de
Maria Auxiliadora.
Dom
Bosco faleceu em Turim, Itália, no dia 31 de janeiro de 1888. Foi beatificado
em 1929 e canonizado pelo Papa Pio XI, em 1934. Foi aclamado pelo Papa como “O
Pai e Mestre da Juventude.”
Por que o nome “Salesianos de Dom Bosco”?
São João Bosco é um santo italiano do século dezenove:
seus meninos o chamavam de DOM BOSCO e “DOM” em italiano significa “Sacerdote”
(Padre).
E continua a ser chamado assim também em nossos dias.
Ele fundou uma Congregação cuja finalidade é cuidar dos jovens, especialmente
os mais pobres.
Ele chamou de “Salesianos” aqueles que o quiseram seguir. Esse nome deriva de
São Francisco de Sales, um santo muito popular no norte da Itália, onde Dom
Bosco nasceu
Ele escolheu São Francisco de Sales como patrono da sua Sociedade e quis que
seus colaboradores imitassem a sua grande humanidade.
O senhor participou de algum programa de rádio em
Piracicaba?
Na época o proprietário da Rádio
Alvorada (Antiga Rádio “A Voz Agrícola do Brasil”), disse-me: “-Está faltando
um padre na minha rádio!”. Ele a princípio deu-me três minutos, o programa teve
tanto sucesso que passou a ter uma hora de duração!
O senhor é natural de Piracicaba?
Nasci em São Paulo, sou do Campos
Elísios, antes de tornar-se a “Boca do Crack”! Era uma região nobre, ali
situava-se o Palácio do Governo do Estado, minha infância foi toda ali, tendo
como vizinhos próximos os governadores: Adhemar de Barros. Vi o Presidente Getúlio
Vargas passar com o seu Rolls-Royce, via os políticos importantes da época,
como Lucas Garcez, Porfírio da Paz. Eu era criança na época, mas o bairro era
muto tranquilo.
A origem de seus avós é da Europa?
Meus quatro avós eram italianos! Cozatti tem suas origens
no Norte da Itália. Meu avô materno era do Piemonte, a cidade dele era Turin.
Eles eram originários de Foglizzo que faz parte da Grande Turim. Esse meu avô
era especializado em enxerto de uva, ele veio para o Brasil certo de que iria
fazer a América. A minha mãe nasceu no Brasil, antes da Primeira Guerra Mundial.
Meu avô voltou para a Itália, nisso o irmão mais novo dele foi convocado para a
Guerra. Ele ficou preocupado em ser convocado também. Ele voltou para o Brasil,
minha mãe tinha cinco anos de idade. Passando pela França, aonde foram para Chalon-sur-Saône
e para Marseille.
De lá vieram para o Brasil, onde permaneceram. Meu avô
materno falava vários idiomas. Quando meu avô veio pela primeira vez ao Brasi
casou-se com uma moça italiana que já morava aqui. Voltaram para a Itália,
nesse período nasceu a minha mãe, que praticamente aprendeu a andar no navio
que os trouxe pela segunda vez ao Brasil. Quando a minha mãe estava com sete
anos nasceu a segunda filha, aqui no Brasil, ela recebeu o nome de América!
Como se
chamava seu avô materno?
Pietro Rossi, sua esposa, minha avó chamavam-se Margherita.
Rossi
tem alguma ligação com o sobrenome Rosso?
Rossi é o plural de Rosso! Em
português por exemplo, a pessoa refere-se a um indivíduo que é da família “dos
Silva”, em italiano ele irá falar “dei Rossi”. Rosso significa vermelha, é um
sobrenome muito comum no Norte da Itália.
Seu
avô veio para o Brasil e passou a trabalhar com o que?
Aqui ele foi trabalhar na Companhia Inglesa.
E o seu avô paterno?
Meu avô paterno chamava-se Sabino Joaquim Cozatti, ele veio pelo porto de
Nápoles. O sobrenome Cozatti não é napolitano, é mais comum do centro para o
norte da Itália. Meu avô faleceu com 59 anos, e meu pai tinha só 17 anos.
Quantos filhos ele teve?
O meu pai era o filho mais velho, o Francisco veio a óbito,
depois tinha o José, o Agostinho, Rafael, Antonieta e Julia. O meu pai foi
arrimo de família. Quando faltava só um se casar, o caçula, meu pai casou-se
com a minha mãe. Tiveram seis filhos: o segundo, uma semana após nascer foi
para o céu, pneumonia na época não tinha cura. Ele ficou no isolamento, foi o
que nasceu mais forte entre os tratamentos que fizeram, por ser uma ciência
experimental, deixaram sem comer e sem mamar. O recém-nascido em estado anêmico
veio a óbito.
Quais são os nomes do filho do casal?
Deisi, Laerte, Dárcio,
advogado, perito contador, tem um escritório junto com o filho em Jundiai, foi
professor até os 85 anos, agora, com 86 anos ele parou de lecionar. Depois vem
a minha irmã Dirce, que está aqui comigo, dedicou-se a educação, foi diretora
de escola, viajou o mundo. A Dalva, a Dirce e a Deise foram professoras.
O senhor nasceu em que dia?
Nasci no dia 11 de outubro
de 1943, fui batizado no dia 31 de outubro, me ordenei no dia 31 de outubro,
então eu celebro o dia 31 de outubro!
O senhor nasceu em que cidade?
Nasci em São Paulo, capital, o meu
avô era da Lapa. Minha mãe e minha tia nasceram na Lapa. O meu bisavô veio da
França, quis ficar aqui por um tempo quando ele ficou viúvo, aí ele voltou para
Chalon-sur-Saône, foi
sepultado lá. Essa cidade fica próxima a Lion.
Seus estudos iniciaram-se onde?
Estudei no Liceu Coração de Jesus, que existe ainda.
O Bairro dos Campos Elíseos foi um bairro comprado dos fazendeiros. Tirando as
alamedas Cleveland, Nothmann e Glete nesse local havia dois chacareiros suíços,
as demais ruas recebem o nome de Barão de Piracicaba, Barão de Limeira, Barão
de Campinas, eram propriedades dos barões. Naquele tempo os casarões tinham
banheiros no térreo, e os quartos eram enormes, o bondinho era puxado por
muares, e quem dirigia os bondes geralmente eram portugueses, por volta de 1910,
quando começaram a circular os bondes elétricos administrados pela Light.
A Avenida
Paulista, naquela época tinha o solo bastante irregular. Tornou-se plana, porém
nem sempre foi assim; O excesso de terra foi retirado e transportado pelos
bondes elétricos, aterrando parte do bairro dos Campos Elíseos.
Ou seja, o bairro Campos Elíseos foi aterrado com a terra que
deixou a Avenida Paulista plana?
Campos Elíseos teve um aterramento em torno de 3 a 4
metros de altura. Pouquíssimas pessoas sabem disso. Daí surgiu a expressão
“Descida para o Bom Retiro” que era o brejo! Nós temos o Colégio do Bom Retiro,
na Rua Araguari também. E o Liceu Coração de Jesus que é o primeiro do Estado
de São Paulo. Tudo começou com João Melchior Bosco (1815-1888). Nascido
em Becchi, próximo a Turim, na Itália, no dia 16 de agosto de 1815. Com nove
anos teve um sonho que mudou para sempre a sua vida. Sonhou que estava no meio
de jovens que se transformaram em feras e, em seguida, em animais mansos. Esse
sonho nunca saiu de sua cabeça e a partir daí construiu seu projeto de vida,
tornou-se padre e fundou a Congregação dos Salesianos (Sociedade de São
Francisco de Sales).
Os Salesianos têm a missão de ajudar os
jovens, especialmente os mais pobres, a trilharem o caminho ensinado por Jesus
Cristo, do jeito de Dom Bosco, por meio do sistema preventivo: razão, religião
e amorevolezza (palavra italiana que significa amabilidade que se expressa em
atitude cotidiana), formando assim bons cristãos e honestos cidadãos.
Preocupado também com o futuro das meninas,
fundou com Madre Mazzarello, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, as
Salesianas.
Para Dom Bosco, ser santo é muito fácil:
basta ser alegre, cumprir bem seus deveres e ter uma vida de piedade.
Dom Bosco faleceu em Turim, Itália, no
dia 31 de janeiro de 1888. Foi beatificado em 1929 e canonizado pelo Papa Pio
XI, em 1934. Foi aclamado pelo Papa como “O Pai e Mestre da Juventude.” O Colégio Coração
de Jesus, no ano passado fez um convênio com a Prefeitura, é dirigido por Salesianos
e atende alunos até a 6ª. Série passou a ser denominado Liceu Coração de Jesus.
Está com 500 alunos, um colégio que chegou a ter 2.500 alunos! Era um colégio
modelo! Era um internato, muita gente do Mato Grosso que era ainda unificado,
depois surgiu também o Mato Grosso do Sul, de lá vinham muitos filhos de
fazendeiros, esses alunos permaneciam por 4,5 até 6 anos. Saíam formados com o
Curso Técnico de Contabilidade ou Colegial Científico, se preparando para as
universidades.
Havia o ensino de idiomas?
Latim, grego, francês, na época era comum
também em outras escolas. O grego era ensinado nos seminários. Eu fui aluno
também lá. No seminário nós treinávamos: cada dia rezávamos em um idioma! Isso
ajudava muito. Os Irmãos Maristas tinham um costume mais bonito ainda:
quinta-feira era dia de falar francês, que é a língua mãe da congregação. A
nossa língua mãe é a italiana. Todos eles falavam, quem comete um erro passam
para ele um pequeno bastão. Ninguém queria ficar com o bastão no final do dia.
Eu tive muitos professores que foram Irmãos Maristas, falavam fluentemente o
francês. Escreviam em francês. Dominavam totalmente a língua. Cada congregação
tem seus hábitos, seus costumes diferentes, apesar de tudo em comum nos votos.
O que levou o senhor a seguir a Ordem?
Sempre gostei muito de trabalhos manuais, de
fazer as coisas. Só para você ter uma ideia, eu tenho Makita, furadeira
elétrica, pé-de-cabra, ferramentas como chaves de fenda, alicates, enfim o que
julgo ser necessário ter a mão. O meu pai, como arrimo de família, começou a
trabalhar cedo, essa era a situação de quem vinha para o Brasil, ele nasceu em
Minas Gerais, mas foi criado em São Paulo. Com um ano e meio ele já estava em
São Paulo.
Quais eram os nomes dos seus pais?
Meu pai era Eusébio Cozatti e a minha mãe
Anita Rosso Cozatti.
Meu pai foi cantor lírico do Teatro Municipal
de São Paulo. Ele aposentou-se em 1968 e por mais três ou quatro anos ainda
cantou nas óperas. Ele era Tenor Primeiro, voz aguda. As classificações vocais
masculinas: Tenor (voz mais aguda); Barítono (voz entre Tenor e Baixo); e
Baixo: (voz mais grave). O interessante é que ele trabalhou na construção civil
a vida toda. Ainda muito jovem ele trabalhou com Ramos de Azevedo. Meu pai
tinha um paquímetro (instrumento utilizado para medir com precisão pequenas
distancias), isso porque ele se especializou nas molduras precisas e bonitas.
Quem fazia esse trabalho, na época era chamado de frentista. Hoje frentista é a
pessoa que trabalha em posto de combustível e abastece os veículos! Naquela
época o frentista era quem fazia a frente dos prédios. Por exemplo, uma coluna
jônica, a faixada com aqueles desenhos era feito já no tijolo, na massa, no
reboque, e depois alisado com a colherinha pequena. Era a obra de um escultor.
Colunas
Jônicas: são as colunas que possuem capitéis ornamentados com duas volutas, altura nove vezes maior que seu
diâmetro, arquitrave ornamentada com frisos e
base simples. Possui vinte e quatro linhas verticais.
O Ramos
de Azevedo gostava muito dele. Meu pai sempre foi muito inteligente. Ele
iniciou provavelmente como servente e chegou a mestre de obras na década de
50,60.
Isso foi sempre trabalhando com
Ramos de Azevedo?
Com Ramos de
Azevedo foi o começo. Naquele tempo nem se cogitava em fazer um garoto do povo
estudar! Quando muito fazia o curso primário! Meu pai tinha uma cultura enorme
por causa da ópera. O fato de os pais serem italianos, trouxeram uma visão de
cultura diferenciada. Meu pai falava bonito, discursava! Ele trabalhou a vida
toda em dois períodos, para criar 5 filhos em São Paulo.
Vocês moravam em que rua da Lapa?
Morávamos na
Rua Coriolano. A frente do terreno tinha 18 metros, ficaram 6 metros para a
minha mãe, 6 metros para a minha tia. Para começar a vida, casar-se e ficarem
todos juntos. O meu pai tinha um terreno na Freguesia, meu avô precisava
asfaltar a Coriolano, era o último quarteirão da Coriolano que não era
asfaltado. O custo do asfalto, era bem elevado. Meu pai sem falar nada, vendeu
o terreno com a esperança de comprar algo, logo. A inflação foi comendo o
dinheiro, e ele não achou nada em curto espaço de tempo. Entrou em desespero,
com 73 anos, acelerou, teve um câncer, foi em um hospital na Avenida Paulista,
nessa época ainda existia bonde na Avenida Paulista. Tinha até pé de café nas
chácaras da Avenida Paulista! Onde é o Viaduto do Chá, havia Chácaras com
plantações de chá! O Vale do Anhangabaú era plantação de chá! Ainda existem colégios que tinham como limite
o riacho lá embaixo, onde é a Avenida Ruben Berta e a Rua Treze de Maio
atualmente. São Paulo modificou muito e muito rápido. Meu pai vivenciou parte
dessas mudanças. Em época de chuva eles não tinham como trabalhar, meu pai fez
um curso na Santa Marina, com o meu avô, que até então não se conheciam. Meu
avô falava francês e falava italiano.
A Vidraria
Santa Marina é uma empresa brasileira com
sede em São Paulo . Foi fundada em 1896 por Elias Fausto Pacheco Jordão e Antônio da Silva Prado, incorporada pelo grupo Saint-Gobain em 1960. Meu pai foi fazer um curso, para conhecer mais a língua, o
meu avô já era professor lá. Meu avô veio para o Brasil para fazer enxerto de
uvas. Só a viticultura foi desenvolvida agora aqui no Brasil. Imagine o que em
1900 um especialista em enxertos de uvas podia fazer aqui?
Ele passou a trabalhar com o que?
Ele começou a trabalhar como
marceneiro na Companhia Inglesa, a The São Paulo Railway Company, Limited .
Logotipo da The São Paulo
Railway Company, Limited
que fazia o percurso
Santos-Jundiaí, A sede era na Estação da Luz. Meu avô trabalhava reformando os
vagões, era tudo de madeira por dentro. No final, a aposentadoria no Brasil dá
para morrer de fome. Meu avô ficou desesperado e o meu pai construiu a casa. Eu
tinha 10 anos, já estava no Liceu Coração de Jesus, na 5ª Série. Na
quinta-feira nós não tínhamos aula, era o dia em o pessoal do internato ia para
a fazenda, os Beneditinos iam para o Jardim São Bento, atrás do Campo de Marte,
ali era a Chácara dos Beneditinos, o Liceu tinha em Santa Terezinha, que hoje é
o colégio, o carro-chefe das escolas, fica junto ao Horto Florestal de São
Paulo. A casa que o meu pai nos deixou fica no Alto do Mandaqui. Meu pai foi
frentista da Igreja Santa Terezinha. Na Revolução de 1924, caiu uma bomba no Liceu.
Ela não deu a explosão prevista. Foi uma bomba que trincou, mas não explodiu. O
Padre Zae que tinha o apelido de “Cebolão”, pelo fato de ser careca era muito enérgico,
tinha pedido a graça, pediu a Santa
Therezinha que não acontecesse nada com os alunos. Parte dos alunos ficou em
Santa Therezinha. Tinha uma piscina de 50 X50 metros. Plantava-se arroz. Era um
brejão! Hoje é um colégio enorme, tem até teatro com três andares, palco
giratório. O programa Ra´-Tim-Bum fazia as gravações lá, era apresentado pela
TV Cultura com muito sucesso. O teatro faz parte da educação salesiana, a
banda, a orquestra sinfônica.
O senhor tocou na orquestra?
Eu toquei na banda!
Comecei como mascote, me deram um flautim e eu dava uns trinadinhos! Tocava de
ouvido, eu era pequeno, tinha 7 anos, já estava solfejando, mas não sabia nem
ler, nem escrever. Eu ia com o flautim na frente, o público ficava dizendo”
-Ai! Que bonitinho!”. Eu pensei que fosse um grande músico! Quando chegou a
hora de pegar a partitura, voltei para o sax gênesis, passei para a trompa,
depois para o trompete e depois para o trombone. Isso me deu margem para formar
bandas, fanfarras. Até aqui em Piracicaba, no Oratório São Mário, fiz uma
fanfarra com os meninos de rua.
O senhor foi ordenado padre quando?
Eu fiz 15 anos de
seminário. Entrei na 7ª série por causa do grego e do latim. Fora do seminário,
em outras escolas, havia duas aulas de latim por semana, tinha duas de francês
e duas aulas de inglês. Com isso você acaba não aprendendo nenhuma das línguas.
No seminário tinha cinco aulas de latim por semana! No sábado e no domingo se
estudava a Sagrada Escritura em latim. No período de um ano era em francês e no
último ano em grego. Você tem as matérias religiosas nas línguas porque é
necessário. Você pega qualquer volume de teologia, você tem que saber! É como o
médico, para decorar o nome dos remédios deve estudar latim. O grego também
ajuda muito. Culturalmente são línguas muito ricas, além da história dos
romanos as catilinárias. Na 7ª série o pessoal já estava estudando Cícero, as
Catilinárias.
Em que ano o senhor ingressou no Seminário?
Eu cheguei no dia 12 de
fevereiro de 1957, entrei fui para a banda, fazia parte do coral do seminário.
No dia 24 eu era o artista principal da comédia “O mar é o meu sonho”. Essa
dinâmica de atividades dura até hoje.
Quantas horas o senhor dorme por noite?
Durmo de quatro e meia a
cinco horas no máximo.
Isso não prejudica a saúde?
Não, pelo contrário! Vários
médicos, psiquiatras, afirmam que o idoso precisa dormir quatro horas e meia
para ele estar bem. Durmo da meia noite, pouco mais tarde, até as quatro e meia
da manhã.
Ao que consta em sua biografia, na idade madura
Rui Barbosa dormia de quatro a cinco horas por noite.
O meu pai a vida toda
trabalhou em dois lugares. Só depois de idoso, quando ele partiu aos 92 anos,
ele ficava na cama um pouco pela manhã. Levantava-se, tomava o café dele,
solene, com toda pompa. Antes não, a gente tinha que correr atrás.
Esses hábitos o senhor adquiriu no seminário?
Eu ampliei no seminário! Os
padres levantavam às 5 horas da manhã para às 5:30 estarem trabalhando com os
alunos.
O senhor ordenou-se em qual igreja?
Fui batizado, fiz a primeira
comunhão e fui ordenado padre no Liceu Coração de Jesus. O Bispo Ordenante
tinha sido provincial nosso Dom Antônio Barbosa, que foi Bispo de Campo Grande.
Hoje estou com 52 anos de padre, 62 anos de salesiano. Participei de um
Congresso Internacional por meio ano, em Roma. Isso foi antes de ser padre, fui
eleito pelos seminaristas, eu representava a Juventude Salesiana. Na época o
Papa era Paulo VI. Até teve um episódio na ocasião. No Brasil não se usava mais
batina e nem hábito. E para lá, todos foram de terno cinza, colarinho cinza, ou
de terno preto, ou azul marinho escuro. (O colarinho clerical é conhecido como
clergyman, ou roupa dos clérigos). Os americanos nesse ponto são modelo. Quando
eles estão no ofício, você os chama no escritório para atender o pessoal, eles estão
com o clergyman, como o juiz de toga. Quando a passeio, saem à paisana. Quando
estão em casa, no inverno, usam batina. Nós usávamos batina, de manhã, tarde e à
noite. \jogávamos bola de batina. Imagine no verão em Piracicaba! Daí veio a
batina branca. Era quase impossível mantê-la totalmente branca!
Em que ano o senhor veio para Piracicaba?
Vim em 1982. Eu estava
com 40 anos de idade. Eu me formei padre com 28 anos, portanto estava com 12
anos de sacerdócio. Eu era diretor do Liceu de Campinas. Eu renunciei. O
Superior disse-me: “É um absurdo, você está indo bem! Você administrou bem”. Concordei com tudo que
ele falou, só que disse: “Nós fomos feitos para educar a juventude pobre e
abandonada! Estou cansado de trabalhar só sábado e domingo com criança pobre,
que é o Oratório Festivo! Que formou muita gente! Em 1961 o Mário Dedini pediu para os
salesianos virem para a Vila Rezende, Ele disse: “Eu quero tudo que vocês fazem
no Dom Bosco. Futebol, Teatro, não precisa ter escola! Mas que a molecada possa
ter um ambiente bom”. Ele fazia as festas dele lá no oratório. Nessa época eu
era noviço, O diretor do Oratório chamava-se Mário. Mario Dedini disse-lhe: “Eu
sou Mário, o senhor é Mário, vamos colocar o nome de Oratório São Mário, que
foi um Santo Romano, ele mandou buscar uma estátua, só que acho que na Itália
venderam por peso a estátua, acho que ela é de cimento! Eu carreguei para
reformar, disse para o restaurador, um português, incrementar algumas pequenas
alterações de pequena monta. A imagem veio de Roma e essa restauração foi feita
em São Paulo. Dois homens suavam para carregar.
Havia muita frequência de jovens no Oratório
São Mário?
Chegamos a montar oito
times de futebol. O futebol, era para atrair os meninos. Dom Bosco tinha um princípio
interessantíssimo; “Vamos gostar do que os meninos e os jovens gostam para que
eles gostem do que nós gostamos. Vamos apresentá-los a Jesus Cristo, à fé, à
Maria”. Alguns podem dizer: “- Eu não tenho mãe, eu não tenho pai!”. Deus é
pai!
Então ele apresentava o
Santo como uma resposta para a angústia! A vida na alegria! O Reino de Deus! O
Reino da garotada. Os oratórios mudaram muito de nomes, mas a finalidade é
sempre atrair. Então nós somos um grupo jovem que não deveria ser chamado de
momento musical, mas sim monumento musical. Hoje tem escola de música com 600
alunos!
O Oratório formou gente em
todos os campos. Essa escola é uma iniciativa de um casal que se conheceram no
Oratório São Mario.
O Oratório pode ser mais conhecido pela cidade?
Na minha época ele ficou
muito conhecido porque eu fui para o extremo! Ninguém cuidava dos meninos de
rua. Eu fui a reuniões em dois Rotary
Club, encontrei o Domingos que fez encontro comigo em Campos do Jordão como
universitário na Pastoral da Juventude, ele era genro do Elmor Zambello. Quando
vim para Piracicaba já tinha algumas gavetas abertas. O Enedi Boaretto, tinha a
Caninha Boaretto antigamente, foi seminarista comigo e era aqui da ESALQ.
A juventude antigamente tinha uma participação
maior junto a igreja, particularmente junto a Igreja Católica, o que nós sentimos
hoje é que ouve um distanciamento do jovem, isso parece até mesmo que foi
motivado por outros interesses.
Os analistas científicos,
sociólogos que tem amor de verdade em buscas em suas análises eles não têm
examinado mais “a juventude” mas sim “as juventudes”! Criaram-se juventudes como forma de ser
jovem. Quanto mais louco for, melhor! Quanto mais sem princípio for,
melhor! São desvalores que se tornaram
grandes valores!
Mas isso tem um fim?
Ah! Sim! Chega a um ponto
que satura!
Eu estava em Campinas quando
celebrei uma das primeiras missas da Rede Globo. A gravação durou quase 13
horas. Foi a Missa de Natal de 82, ou 83. A missa foi filmada inteirinha, só
que depois foi editada, o Bispo recomendou que eu fizesse do sermão um ato
contínuo do começo até o fim. Celebrei a missa toda, o resto do tempo foram
tomadas de cena. Quando pronuncio: “Glória a Deus nas alturas!” segue uma
revoada de pombas! Só eu que não vi! Eu estava de costas, era no Largo!
O senhor fez um rodízio de cidades?
O meu histórico é fácil!
Sempre onde precisou de alguém para “quebra-galho” eu aceitava. Por três anos
fui para Sorocaba. Eu já tinha trabalhado lá antes, no Colégio Salesiano São
José em Sorocaba. Era a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Eu fiz o 13º ano do Colégio,
depois fui diretor no 40º ano do
Colégio, eu estava com 25 anos de padre, eu tinha trabalhado como seminarista,
72,73 e 74 trabalhei em Sorocaba. Sendo que nas férias eu ia para os encontros
de adolescentes, férias e colônia de férias com os alunos. Em julho em Campos
do Jordão, e em janeiro ao seminário de Lavrinhas, onde está a Canção Nova
hoje.
O senhor foi radialista também?
Todo e sempre! Em Campos
do Jordão fazia programa na rádio, a Rádio Mais Alta do Brasil! Fizemos novelas
em todos os sanatórios. Conheci o Padre Vita, conheci vários fundadores. O
padre Vita foi tuberculoso e fez uma congregação para cuidar dos tuberculosos.
Hoje está minguando porque tuberculose se trata em casa atualmente. Ou seja,
morre em casa, dá o tratamento e o paciente não tem dinheiro para comer o que
precisa comer. Tuberculose tem que ficar parado, você é doente, mas não sente.
Quanta gente morreu na minha mão, chegava no hospital, comia, dali a pouco
estava vomitando sangue, dava tempo de rezar e encomendar a Deus. Para a
criançada íamos animar, as Irmãs perguntavam: “Porque tanto grito Padre Dilermando?”
A resposta era: “É gritoterapia!”. Alegres eles não pensam em doença. Senão
ficam pensando ou dizendo: “Estou com frio!”, “Não posso tomar sol”, “Estou doente”
... Tem que extravasar!
O senhor sempre foi muito animado!
A minha vida era em São
Paulo, daí arrumei sarna para me coçar, foi uma experiência muito boa, por três
anos participei como voluntário, com os jovens que faziam encontro em Campos do
Jordão, eu ocupava o domingo deles na FEBEM, na Unidade de Triagem n°2. Nós
tínhamos lançado um livro chamado: “O Evangelho Segundo o Trombadinha”. O
pessoal de lá achou que essa palavra era ofensiva. Não é trombadinha vai ser
ladrão, vai ser bandido e vai morrer! Sem julgamento nenhum. Eu prefiro dizer
que era trombadinha e hoje ele é gente. No fim, o título do livro ficou sendo
“O Evangelho Segundo Barrabás”. Barrabás foi escolhido para ficar no lugar de
Jesus. Ou seja, ou você faz dele um cristão ou deixa morrer como um bandido.
Era a interpretação dos meninos do texto do Evangelho. Na capa, o garoto que
fez, é meu ex-aluno. Ele colocou a frase: “Jesus foi mais feliz do que eu”. Ele
prossegue no texto escrevendo: “Quando o puto do meu pai soube que eu estava em
jogo, ele sumiu. E minha mãe me criou na rua, para poder pedir esmola e
sobreviver. São textos assim, que tiversm origem quando Paulo VI, na época
Arcebispo de Milão, pediu para os salesianos cuidarem no pós-guerra dos órfãos.
Eles formavam um grupo que pode ser comparado ao Hamas atualmente. Eram
milhares de jovens órfãos que buscavam a sobrevivência dentro do caos. Formaram
um grupo fechado, que saía matando, roubando, extremamente revoltados.
O senhor tem algum projeto a ser realizado em
Piracicaba?
Eu fiz um projeto, realizei,
tivemos até fábrica de sorvete, em Manaus trabalhamos com sucata, por isso sou
Cidadão Piracicabano! Foi dado pela vereadora Márcia Pacheco. Quando eu saí
infelizmente perceberam a minha falta. Eu gostaria que ninguém percebesse, mas
que o projeto tivesse continuado.
O senhor está escrevendo um livro?
Estou! Chama-se “Memórias do
Oratório”! Está quase pronto. Quero incluir mais participações após 40 anos. O
que foi virou uma tese e defendi na faculdade. Apresentei até em Israel! Como
recuperar drogados. Ontem mesmo, fui visitar um que é pai de família, no dia em
que inauguramos o “Recanto da Amizade” na Rua Prudente de Moraes, ele
choramingando falava: “Eu quero a minha cola!”. E assim ele ia se lamentando.
Isso com a presença do Bispo, da Imprensa. Nós tínhamos feito um trato: se
entrasse naquele ambiente não poderia ter cola. Se quisesse ir embora, pegava a
cola que tinha levado e ia embora. Lá eles tomavam banho, comiam, tinham lazer,
aprendiam ler e escrever, tinham quatro horas de trabalho, com isso esqueciam
da cola. Nos fins de semana fazíamos a queima da cola, que por sinal tem uma
fumaça bonita! Colorida! Era a droga mais utilizada pelos garotos na época.
Eles colocavam a cola de sapateiro em um saquinho e inalavam. Com isso eles
criavam coragem para praticar pequenos furtos, roubavam as bancas, o que
estivesse ao alcance. Os comerciantes da Rua Governador Pedro de Toledo deram
graças a Deus quando eu cheguei.
Fiz um desfile com o dono da
Sorveteria Paris e com o dono da Cacau. Eles saíram a frente. Quem fazia os
sorvetes eram os jovens do grupo da Ivete, iam todas as noites lá, ficavam com
os jovens, conviviam com eles, houve um casamento entre eles, fazia bailinhos.
Nesse desfile em que os dois empresários foram na frente, os meninos foram com
12 carrinhos de sorvete, com a ajuda do Cristofoletti, o prefeito Adilson
Benedito Maluf, ex-aluno do Colégio Dom Bosco, conseguiu os carrinhos de
sorvete e a máquina para fabricar o sorvete. Os meninos saíram uniformizados
e vendendo sorvete! Ganhavam 40% registrado em carteira de trabalho!
Trinta e três deles
trabalhavam na Loja Americana, no Shopping Piracicaba, que era pequenininho na
época. Eram empacotadores. Outros trabalhavam na sucata porque não queriam
andar limpos!
Para os garotos bem
pequenos, eu ganhava uma tonelada de balas de uma empresa de São Paulo,
colocava em saquinhos essas balas, elas eram vendidas e o dinheiro ficava para eles,
eles tinham que levar dinheiro para casa a noite! Os grandes já não voltavam
para casa porque sabiam que poderiam fazer outras coisas por aí.
Quem era grandinho, era
fumante, a regra era “Aqui não se fuma”. Então ele ia fumar dando uma volta no
quarteirão. De dar tantas voltas no quarteirão perdia o vício!
Uma bela psicologia!
Na porta tinha um aviso:
AQUI NÃO SE FUMA. Recebíamos mães, pessoas desesperadas que vinham ajudar na
cozinha, gente problemática mesmo. Tinha as ótimas mães de família. E tinha
aquelas que vinham para se encontrar na vida. Logo viam os dizeres: Respeitamos
a natureza. No Oratório tínhamos 1.500 pintinhos sendo criados. A área física
do Oratório são 13.000 metros quadrados. Fiz o campo de futebol, piscina, campo
de futebol Society e fiz a sucata, que íamos buscar em Manaus, aproveitando o
retorno de caminhões vazios. Lá nós comprávamos diversos itens a preços locais,
ajudando dessa maneira os meninos da região. Por exemplo, lá uma garrafa custava 20 centavos
na época, aqui eram 3 ou 4 reais. Trouxemos uma vez, milhares de garrafas,
quebraram só umas 150. A viagem levava de 15 a 19 dias. Nessa época, ganhamos
uma concorrência de compra de sucatas metálicas da moto Honda, onde tinha um
caminhão que prensava tudo que sobrava e vinha para o Dedini e outras empresas
que compravam da gente. Você começa a fazer, quem tem boa vontade aparece, A
Santa Marina, mandou uma pessoa, ele me deu uma perua Kombi e 70 containers próprios
para levar vidro. Nós chegamos a levar toneladas de vidro para a Santa Marina,
o pessoal doava vidros nesses containers. Para esse trabalho colocamos
funcionários habilitados por ser um serviço mais específico que oferecia risco
ao leigo.
O senhor foi um empreendedor!
Fui! Tenho até uma tese que
uma judia escreveu, ela fez uma análise do meu empreendedorismo.
Quando sai o seu livro?
Era para ter saído, nos 50
anos, há 2 anos atrás.
O que falta para sair?
Está faltando a parte de
mais testemunhos. Para mim o mais importante são os últimos 40 anos. O pessoal
tem me mandado mensagens, tenho recebido um bom material.
Sou uma pessoa
conhecida, já fui até no Programa do Jô Soares, eu toco pandeiro nas horas
vagas!
Nesse momento, Dilermando levanta-se, dirige-se
a um quarto ao lado, e volta com um pandeiro profissional. Boquiaberto vejo
aquele padre com uma habilidade e destreza, rodopiar rivalizando seus
movimentos com os do grande Jackson do Pandeiro, Dilermando, a meu pedido, dá
uma demonstração de como desliza o dedo na borda do pandeiro, isso só os
craques fazem com perfeição. E de improviso ele fez! Com um sorriso de um
menino, ele parece se divertir muito.
Como você aprendeu a tocar pandeiro?
Com dez anos de idade, meu
irmão Darcio, tinha conjunto de música moderna , como se chamava na época, meu
irmão tocou no Sílvio Santos por muitos anos, é perito contador de
contabilidade pública e privada, advogado, professor, trabalhou nas finanças
das ETECs.
Você é uma pessoa especial, traz uma alegria
pura, tem um olhar para o próximo como um irmão, talvez seja isso que a
humanidade esteja procurando com tanta aflição.
Devo isso ao meu pai, a
minha mãe, aos meus irmãos, fui iniciado no mundo em um ninho bem-feito. Uma
família bem constituída, sempre lutei pela família, o carisma de Dom Bosco é família.
Na época, no Oratório, dávamos refeição para 150 pessoas, juntos, eu ficava na
ponta, os dirigentes todos misturados, Ali íamos corrigindo os defeitos sem
chamar a atenção. A pessoa comeu a galinha, jogou o ossinho, devagarinho , quem
viu, vai lá e diz: “Ô meu, pega o ossinho lá que vai ficar criando problema!”.
Quantas faculdades você já fez?
Fiz Filosofia Pura,
Pedagogia, Teologia, Educação Física. E daí cursos complementares para ir me
especializando cada vez mais nessas áreas todas. Dei aula de Psicologia por 59
anos.